Atuação

• Coordenador do Serviço de Neurocirurgia e Neurologia do Hospital Unimed BH • Neurocirurgião do Biocor Instituto, Belo Horizonte, MG Membro Titular da Academia Mineira de Medicina • Membro Titular da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia • Membro do Congresso of Neurological Surgeons • Mestrado e Doutorado em Cirurgia pela UFMG

Especialidades

• Malformação • Artério Venosa • Aneurisma Cerebral • Cirurgia de Bypass • Revascularização Cerebral • Cirurgia de Carótida • Tumores Cerebrais • Descompressão Neurovascular • Doença de Moya-Moya Tumores da Base do Crânio Doppler Transcraniano

Contato

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Guimarães Rosa, o médico


Para quem gosta de Guimarães Rosa, recomendo a Biografia   que estou lendo, escrita por Leonencio Nossa (Editora Nova Fronteira). Para dar um gostinho, cito alguns trechos do livro na parte que se dedica ao médico.

 Há citações interessantes e conhecidas, como a de um trecho de seu discurso como orador da turma de 1930: “É junto ao leito dos doentes, no retiro dos lares aflitos, aí onde não tendes outros juízes que não sejam Deus e as vossas consciências, e na majestade dessas funções que vestis a toga de uma magistratura quase divina! ”

Fala de sua ida para clinicar na pobre Itaguara, então sem eletricidade, água encanada ou estradas calçadas. Já estava casado com Lygia e fez o parto de sua primeira filha, Vilma. Viria um médico amigo de Itaúna para fazer o parto, mas não chegou a tempo.

Em 1933 prestou concurso para a Força Pública de Mina (hoje Polícia Militar) e integrou o 90 Batalhão. Como o movimento constitucionalista tinha chegado ao fim, o Batalhão foi removido para Barbacena, terra dos Bias e Andradas (e dos meus pais).

Um parêntese, quando estudei em Barbacena, vi um único registro de sua passagem pela cidade. Era uma placa, fixada no muro baixo de uma casa na Avenida Bias Fortes, no centro, onde ele morou. Já foi demolida. Hoje é um predinho horroroso.

No batalhão em Barbacena, não clinicava. Teve mais tempo para suas leituras, para o estudo de línguas (francês, russo, japonês) e para se preparar para o concurso do Itamaraty. Em Barbacena, nasceu sua segunda filha, Agnes.

Barbacena já era conhecida como terra das Rosas e dos Loucos. A filha Agnes não deixa passar batido: “Repara que volta e meia aparecem uns loucos nas histórias do papai. É porque ele foi médico em Barbacena, onde havia três manicômios”.

Outro parêntese, na época em que eu estudei lá, eram 23 Instituições de saúde mental, entre hospitais e clínicas, incluindo o então Manicômio Judiciário, o Ipeme (para menores delinquentes com distúrbios mentais) e o Hospital colônia, onde tive aulas.

Surpreende no livro a maneira como Rosa fala da Medicina. Em carta ao amigo Pedro Barbosa fala dos planos de deixar a medicina. Nas palavras da carta: “Madame Medicina é uma mulher feia, ingrata, pedante, de perto, mas que, vista de longe, atrai os incautos”. E diz ainda a Pedro: “Lembro-me de ter dito a você, parece-me que em Itaguara, que me achava decepcionado com a realidade da medicina, sentindo até algum arrependimento por não ter estudado direito, carreira que então já me aparecia como mais compatível com o meu temperamento e com as minhas fracas aptidões”.

Ele confessava sua angústia pelo sofrimento dos pacientes: “Não nasci para isso, penso. “

E por fim, para meu espanto, desabafou com o amigo: “Ora, a prática da clínica (sem falar, por favor, na cirurgia, na obstetrícia, nas especialidades da cabeça), temos de fazer o trabalhinho material, corriqueiro de examinar as mazelas alheias, de apalpar, remexer, tapear, esgravatar, posar, percutir, levantar roupas, cheirar excrementos malcheirosos, entrar em contato com a dor e o sofrimento, tudo isso para obter-se uma minguada remuneração pecuniária, uma constante preocupação de espírito, raras vezes as satisfação intelectual de um diagnóstico bem feito”.

E arremata: “É muito pouca recompensa para a vida árdua e desagradável que se leva: chamados à noite, chamados imprevistos, intrigas de colegas (esta é a classe mais desunida que existe) etc., etc.”

Há que se desculpar, não só por ser muito jovem à época. Como ele mesmo diria mais tarde, “Mocidade é tarefa para se desdizer”. Mas deve-se levar em consideração também as condições precárias do exercício da medicina em Itaguara e o tédio de funções burocráticas no quartel da polícia, onde raramente via pacientes.

Guimarães Rosa encerrou sua carreira na medicina em Barbacena mesmo, em 1934. Ali, nas madrugadas frias estudava como louco para o concurso do Instituto Rio Branco. Passou em segundo lugar e em julho daquele ano assumiu como Cônsul de terceira classe.

Ao amigo Pedro, escreveu: “Terminei o primeiro capítulo do 20 volume da minha vida...encontrei minha verdadeira vocação”.

 

 

 

  

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