Para quem gosta de Guimarães Rosa, recomendo a Biografia que
estou lendo, escrita por Leonencio Nossa (Editora Nova Fronteira). Para dar um
gostinho, cito alguns trechos do livro na parte que se dedica ao médico.
Há citações
interessantes e conhecidas, como a de um trecho de seu discurso como orador da
turma de 1930: “É junto ao leito dos doentes, no retiro dos lares aflitos, aí
onde não tendes outros juízes que não sejam Deus e as vossas consciências, e na
majestade dessas funções que vestis a toga de uma magistratura quase divina! ”
Fala de sua ida para clinicar na pobre Itaguara, então sem
eletricidade, água encanada ou estradas calçadas. Já estava casado com Lygia e
fez o parto de sua primeira filha, Vilma. Viria um médico amigo de Itaúna para
fazer o parto, mas não chegou a tempo.
Em 1933 prestou concurso para a Força Pública de Mina (hoje
Polícia Militar) e integrou o 90 Batalhão. Como o movimento
constitucionalista tinha chegado ao fim, o Batalhão foi removido para
Barbacena, terra dos Bias e Andradas (e dos meus pais).
Um parêntese, quando estudei em Barbacena, vi um único
registro de sua passagem pela cidade. Era uma placa, fixada no muro baixo de uma
casa na Avenida Bias Fortes, no centro, onde ele morou. Já foi demolida. Hoje é
um predinho horroroso.
No batalhão em Barbacena, não clinicava. Teve mais tempo
para suas leituras, para o estudo de línguas (francês, russo, japonês) e para
se preparar para o concurso do Itamaraty. Em Barbacena, nasceu sua segunda
filha, Agnes.
Barbacena já era conhecida como terra das Rosas e dos
Loucos. A filha Agnes não deixa passar batido: “Repara que volta e meia
aparecem uns loucos nas histórias do papai. É porque ele foi médico em
Barbacena, onde havia três manicômios”.
Outro parêntese, na época em que eu estudei lá, eram 23
Instituições de saúde mental, entre hospitais e clínicas, incluindo o então
Manicômio Judiciário, o Ipeme (para menores delinquentes com distúrbios mentais)
e o Hospital colônia, onde tive aulas.
Surpreende no livro a maneira como Rosa fala da Medicina.
Em carta ao amigo Pedro Barbosa fala dos planos de deixar a medicina. Nas
palavras da carta: “Madame Medicina é uma mulher feia, ingrata, pedante, de
perto, mas que, vista de longe, atrai os incautos”. E diz ainda a Pedro: “Lembro-me
de ter dito a você, parece-me que em Itaguara, que me achava decepcionado com a
realidade da medicina, sentindo até algum arrependimento por não ter estudado
direito, carreira que então já me aparecia como mais compatível com o meu
temperamento e com as minhas fracas aptidões”.
Ele confessava sua angústia pelo sofrimento dos pacientes: “Não
nasci para isso, penso. “
E por fim, para meu espanto, desabafou com o amigo: “Ora, a
prática da clínica (sem falar, por favor, na cirurgia, na obstetrícia, nas
especialidades da cabeça), temos de fazer o trabalhinho material, corriqueiro
de examinar as mazelas alheias, de apalpar, remexer, tapear, esgravatar, posar,
percutir, levantar roupas, cheirar excrementos malcheirosos, entrar em contato
com a dor e o sofrimento, tudo isso para obter-se uma minguada remuneração
pecuniária, uma constante preocupação de espírito, raras vezes as satisfação intelectual
de um diagnóstico bem feito”.
E arremata: “É muito pouca recompensa para a vida árdua e
desagradável que se leva: chamados à noite, chamados imprevistos, intrigas de
colegas (esta é a classe mais desunida que existe) etc., etc.”
Há que se desculpar, não só por ser muito jovem à época. Como
ele mesmo diria mais tarde, “Mocidade é tarefa para se desdizer”. Mas deve-se
levar em consideração também as condições precárias do exercício da medicina em
Itaguara e o tédio de funções burocráticas no quartel da polícia, onde
raramente via pacientes.
Guimarães Rosa encerrou sua carreira na medicina em
Barbacena mesmo, em 1934. Ali, nas madrugadas frias estudava como louco para o
concurso do Instituto Rio Branco. Passou em segundo lugar e em julho daquele ano
assumiu como Cônsul de terceira classe.
Ao amigo Pedro, escreveu: “Terminei o primeiro capítulo do
20 volume da minha vida...encontrei minha verdadeira vocação”.