Jair Raso

Atuação

• Coordenador do Serviço de Neurocirurgia e Neurologia do Hospital Unimed BH • Neurocirurgião do Biocor Instituto, Belo Horizonte, MG Membro Titular da Academia Mineira de Medicina • Membro Titular da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia • Membro do Congresso of Neurological Surgeons • Mestrado e Doutorado em Cirurgia pela UFMG

Especialidades

• Malformação • Artério Venosa • Aneurisma Cerebral • Cirurgia de Bypass • Revascularização Cerebral • Cirurgia de Carótida • Tumores Cerebrais • Descompressão Neurovascular • Doença de Moya-Moya Tumores da Base do Crânio Doppler Transcraniano

Contato

Alameda da Serra 400 / 404 - Nova Lima - MG (31)3264-9590 • (31) 3264-9387 jrasomd@yahoo.com.br

Guimarães Rosa, o médico


Para quem gosta de Guimarães Rosa, recomendo a Biografia   que estou lendo, escrita por Leonencio Nossa (Editora Nova Fronteira). Para dar um gostinho, cito alguns trechos do livro na parte que se dedica ao médico.

 Há citações interessantes e conhecidas, como a de um trecho de seu discurso como orador da turma de 1930: “É junto ao leito dos doentes, no retiro dos lares aflitos, aí onde não tendes outros juízes que não sejam Deus e as vossas consciências, e na majestade dessas funções que vestis a toga de uma magistratura quase divina! ”

Fala de sua ida para clinicar na pobre Itaguara, então sem eletricidade, água encanada ou estradas calçadas. Já estava casado com Lygia e fez o parto de sua primeira filha, Vilma. Viria um médico amigo de Itaúna para fazer o parto, mas não chegou a tempo.

Em 1933 prestou concurso para a Força Pública de Mina (hoje Polícia Militar) e integrou o 90 Batalhão. Como o movimento constitucionalista tinha chegado ao fim, o Batalhão foi removido para Barbacena, terra dos Bias e Andradas (e dos meus pais).

Um parêntese, quando estudei em Barbacena, vi um único registro de sua passagem pela cidade. Era uma placa, fixada no muro baixo de uma casa na Avenida Bias Fortes, no centro, onde ele morou. Já foi demolida. Hoje é um predinho horroroso.

No batalhão em Barbacena, não clinicava. Teve mais tempo para suas leituras, para o estudo de línguas (francês, russo, japonês) e para se preparar para o concurso do Itamaraty. Em Barbacena, nasceu sua segunda filha, Agnes.

Barbacena já era conhecida como terra das Rosas e dos Loucos. A filha Agnes não deixa passar batido: “Repara que volta e meia aparecem uns loucos nas histórias do papai. É porque ele foi médico em Barbacena, onde havia três manicômios”.

Outro parêntese, na época em que eu estudei lá, eram 23 Instituições de saúde mental, entre hospitais e clínicas, incluindo o então Manicômio Judiciário, o Ipeme (para menores delinquentes com distúrbios mentais) e o Hospital colônia, onde tive aulas.

Surpreende no livro a maneira como Rosa fala da Medicina. Em carta ao amigo Pedro Barbosa fala dos planos de deixar a medicina. Nas palavras da carta: “Madame Medicina é uma mulher feia, ingrata, pedante, de perto, mas que, vista de longe, atrai os incautos”. E diz ainda a Pedro: “Lembro-me de ter dito a você, parece-me que em Itaguara, que me achava decepcionado com a realidade da medicina, sentindo até algum arrependimento por não ter estudado direito, carreira que então já me aparecia como mais compatível com o meu temperamento e com as minhas fracas aptidões”.

Ele confessava sua angústia pelo sofrimento dos pacientes: “Não nasci para isso, penso. “

E por fim, para meu espanto, desabafou com o amigo: “Ora, a prática da clínica (sem falar, por favor, na cirurgia, na obstetrícia, nas especialidades da cabeça), temos de fazer o trabalhinho material, corriqueiro de examinar as mazelas alheias, de apalpar, remexer, tapear, esgravatar, posar, percutir, levantar roupas, cheirar excrementos malcheirosos, entrar em contato com a dor e o sofrimento, tudo isso para obter-se uma minguada remuneração pecuniária, uma constante preocupação de espírito, raras vezes as satisfação intelectual de um diagnóstico bem feito”.

E arremata: “É muito pouca recompensa para a vida árdua e desagradável que se leva: chamados à noite, chamados imprevistos, intrigas de colegas (esta é a classe mais desunida que existe) etc., etc.”

Há que se desculpar, não só por ser muito jovem à época. Como ele mesmo diria mais tarde, “Mocidade é tarefa para se desdizer”. Mas deve-se levar em consideração também as condições precárias do exercício da medicina em Itaguara e o tédio de funções burocráticas no quartel da polícia, onde raramente via pacientes.

Guimarães Rosa encerrou sua carreira na medicina em Barbacena mesmo, em 1934. Ali, nas madrugadas frias estudava como louco para o concurso do Instituto Rio Branco. Passou em segundo lugar e em julho daquele ano assumiu como Cônsul de terceira classe.

Ao amigo Pedro, escreveu: “Terminei o primeiro capítulo do 20 volume da minha vida...encontrei minha verdadeira vocação”.

 

 

 

  

[ Leia mais ]

Posted by Jair Raso 0 comentários »

Uma peça, várias homenagens

 O  nosso espetáculo “Angelin, professor de humor” nasceu com a ideia de homenagear um grande brasileiro: o médico, neurocientista, zoólogo, ambientalista e escritor, e escritor Ângelo Machado. Porém,  o resultado final foi além disso. 

Acabamos por homenagear cinco personagens importantes da ciência e da cultura de nosso país. 

A começar, claro, por Ângelo Machado e uma personagem que é o pivô da história: Conceição Machado, mulher do professor. Ela também neurocientista de renome. 

Fizemos também homenagem a outro casal, que contribuiu  de maneira extraordinária para o desenvolvimento das artes cênicas em Minas Gerais 

Falo do casal Jota Dângelo e Mamélia Dornelles. Ele, também médico, dramaturgo, ator e diretor de teatro; Ela, diretora, atriz e gestora cultural.

 Por fim, o espetáculo “Angelin, professor de humor” é uma homenagem ao protagonista, o ator Carlos Nunes, um dos maiores comediantes do Brasil, que já acumula quase 50 anos de carreira.

Para além das nossas  homenagens, o jornalista Helvécio Carlos, do jornal Estado de Minas exalta o espetáculo e o considera uma homenagem ao Teatro feito em nosso Estado. 



 

[ Leia mais ]

Posted by Jair Raso 0 comentários »

Neuroanatomia, uma paixão

 


 

Às vésperas de estrear um novo espetáculo inspirado na vida e obra do professor Ângelo Machado, “Angelim, professor de humor”, sinto uma alegria diferente. Penso que escrevi esse espetáculo não apenas para homenagear esse grande brasileiro, mas para celebrar uma paixão comum, a neuroanatomia.

O livro de Ângelo Machado, Neuroanatomia Funcional, foi sem dúvida o que mais estudei durante toda minha formação. Primeiro como aluno de medicina, driblando as dificuldades de memorizar e identificar tantos nomes e funções do mais elaborado mistério do universo, nosso sistema nervoso. Depois, como residente de neurocirurgia, voltava ao livro de Ângelo Machado para correlacionar sinais e sintomas de doenças neurológicas e neurocirúrgicas com precisa base anatômica. Já formado, fui professor de neuroanatomia na Faculdade de Medicina de Barbacena e na UFMG.

Esse conhecimento básico foi fundamental para o aprendizado da  neuroanatomia sob o microscópio cirúrgico. Para além do domínio técnico da microcirurgia, é o conhecimento dessa neuroanatomia aplicada que permite ao neurocirurgião abordar lesões complexas no cérebro e na medula, mudando o curso de doenças que provocariam a morte ou sequelas graves.

Quando conheci pessoalmente o professor Ângelo Machado, ele já havia se aposentado da medicina e prestado concurso para professor de zoologia na UFMG, onde passou a ensinar outra área de seu interesse: os insetos. O maior colecionador de libélulas do mundo passou a se dedicar também à literatura e ao teatro. E foi no teatro que me aproximei dele, fruto de amizades comuns com Jota Dangelo, meu grande mestre das artes cênicas, e sua mulher, Mamélia Dornelles, responsável pela montagem das peças infanto-juvenis do professor. Mais tarde, passamos a conviver na Academia Mineira de Medicina.

Ângelo Machado dedicou sua vida de médico ao ensino da neuroanatomia e a pesquisas, com destaque para seus estudos sobre a glândula pineal.

Se tínhamos em comum a paixão pela neuroanatomia, foi o teatro que nos uniu.

Minha peça “Angelim, professor de humor” é isso: a celebração de um encontro de paixões pela neuroanatomia e pelo teatro, que se transformam em pano de fundo para contar parte da história desse ilustre brasileiro, médico, pesquisador, escritor, ambientalista, zoologista e dramaturgo Ângelo Machado.  E tudo isso com humor, marca registrada do professor.

[ Leia mais ]

Posted by Jair Raso 0 comentários »

Envelheça bem

 

Os avanços da medicina ajudam as pessoas a viver mais e com melhor qualidade de vida graças à prevenção e tratamento de doenças próprias do idoso, que ganharam espaço na prática médica fundamentada em evidências científicas.

O problema é que as pessoas não querem envelhecer e buscam a eterna juventude percorrendo solo minado por promessas de drogas milagrosas, que prometem o que não cumprem e, pior, colocam em risco a saúde.

Além de suplementos alimentares com antioxidantes, vitaminas e sais minerais sem a devida evidência de eficácia para barrar o envelhecimento, a prescrição de hormônios tem sido comum. O problema é que nenhum hormônio mostrou até hoje ser capaz de barrar o envelhecimento e muito menos de rejuvenescer. Pior que isso, há riscos comprovados do seu uso indiscriminado.

Um exemplo é a prescrição do GH, hormônio do crescimento, para pessoas sem deficiência desse hormônio, no intuito de melhorar a disposição, ganhar massa muscular e fortalecer os ossos. Além de não ter comprovação, há riscos de desenvolvimento de diabetes, hipertensão e até câncer.

O uso de medicamentos sem respaldo científico fere o código de ética médica e muitos médicos já foram punidos pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) por prescrições temerárias e publicidade sensacionalista e enganosa.

Se por um lado os hormônios e antioxidantes estão na berlinda, existem evidências que sustentam os benefícios da mudança de alguns hábitos para um envelhecimento mais saudável. E o que é melhor, esses hábitos não têm contraindicações:

  • Estimule seu cérebro: assim como o resto do corpo, o cérebro precisa de exercícios: leia, ouça música, aprenda algo novo todos os dias;
  • Faça uma alimentação saudável: beba água, coma frutas, grãos e vegetais para suprimento adequado de vitaminas e minerais;
  • Pratique exercícios: a prática de exercícios aeróbicos é o melhor antídoto para a perda da massa muscular e da densidade óssea, associadas ao envelhecimento;
  • Durma bem: o cérebro necessita do sono para funcionar melhor. E seu corpo também.
  • Cuide do espírito: seja por meditação, preces, ou outras práticas religiosas. Cuidar do espírito é tão importante quanto cuidar do corpo;
  • E divirta-se, com humor e alegria, únicas formas de manter a juventude.

Uma vez mais jovens com a prática desses bons hábitos, teremos serenidade para seguir a recomendação de Nelson Rodrigues, o maior dramaturgo brasileiro. Perguntado sobre qual conselho gostaria de deixar para os jovens, ele foi taxativo:

-Envelheçam!


Nota: Crônica selecionada no Concurso Literário de Crônicas e Contos da Unimed-BH, em comemoração do dia do médico. Foi  publicada no livro "Reconectar-se", distribuído no 

200 Encontro de Cooperados, outubro, 2025.

[ Leia mais ]

Posted by Jair Raso 0 comentários »

Caminho do Sucesso Acadêmico – Parte II: Neotenia e a inteligência construída X artificial

 


palavra Neotenia vem do grego neo (novo, novidade) e teinein, que significa estender, prolongar. O termo vem da biologia e se refere a organismos adultos que mantém traços infantis. O exemplo clássico de neotenia é o Axolotle, a salamandra mexicana, que mantem na idade adulta características larvais, como as brânquias externas, que lhe conferem um aspecto juvenil.

Na antropologia, o estudo da evolução da espécie humana considera que a neotenia exerce um papel central, tanto do ponto de vista biológico como comportamental.  Comparado a outros primatas, o homo sapiens adulto têm características físicas consideradas juvenis, como o crânio arredondado, a pequena mandíbula, a ausência de pelos e a postura ereta. Nosso cérebro tem desenvolvimento muito lento, mas com altíssima plasticidade neuronal, que nos permite melhor adaptação ao ambiente e a manutenção da capacidade de aprendizado por toda vida. Nossa constante curiosidade, essencial para inovação e para o pensamento científico e criativo é considerada uma característica neotênica.

Do ponto de vista de comportamento, por questões de sobrevivência desenvolvemos fortes vínculos familiares e sociais com extraordinária capacidade de afeto, empatia e cooperação. A neotenia permite nossa inserção e adaptação a redes de socialização complexas, criando e adotando regras e valores, que passam de geração a geração.

E o que a neotenia tem a ver com o a medicina e seu ensino. Por ser a mais humana das profissões, penso que o aprimoramento de nossas melhores características neotênicas deve ser a base da formação do médico. São exemplos de habilidades neotênicas que temos que aprimorar e ensinar: o comprometimento com o aprendizado por toda vida, o fortalecimento de laços sociais e cooperativos e o trabalho em equipe. Empatia, resiliência, plasticidade, flexibilidade e curiosidade, todas características neotênicas de todo bom médico e demais profissionais da saúde.

E o que a neotenia tem a ver com inteligência artificial? Nossa inteligência genuína não é dada, mas construída, exigindo de nós grande empenho e esforço por toda uma vida. A neotenia nos ajuda a plasmar um cérebro inteligente, adaptável e criativo, capaz de aprender, mudar e se adaptar a partir das experiências.

É a neotenia que nos capacita para encarar a inteligência artificial (IA) não como uma oposição à nossa inteligência, mas como uma oportunidade para ampliá-la. O uso da IA como ferramenta de ensino e aprendizagem, bem como na prática médica cotidiana, no atendimento em consultórios, ambulatórios e mesmo à beira do leito já é uma realidade sem retorno.

O desafio será como usar essas engenhocas eletrônicas e ao mesmo tempo aprimorar nossas características neotênicas. Ou seja, como nos tornar cada vez mais humanos para cuidar do ser humano.

Assim podemos resumir o caminho do sucesso acadêmico: se inspirar no modelo, mas fazer o próprio caminho, tendo como base o autoconhecimento; praticar a medicina como phronesis, para além da arte e ciência, procurando ser soft com nossas skills e aprimorar nossas melhores qualidades neotênicas.

[ Leia mais ]

Posted by Jair Raso 0 comentários »

Caminho do Sucesso Acadêmico – Parte I: Phronesis e Soft skills

Caminho do Sucesso Acadêmico – Parte I: Phronesis e Soft skills

 

Fui convidado por alunos da Faculdade de Medicina de Barbacena para proferir a palestra de abertura do I Congresso de Especialidades e Carreira Médica, organizado por eles e realizado entre os dias 21 e 23 de maio.

Fiquei muito feliz com o convite, não só por me dar oportunidade de retornar à faculdade onde me formei, mas sobretudo pelo desafio do tema proposto por eles para a palestra: “O Caminho para o Sucesso Acadêmico; Condutas essenciais para médicos em formação”.

Poderia abordar o tema sob minha perspectiva como acadêmico de medicina, encarando o sucesso de ter sido primeiro aluno. Mas se fosse por esse caminho, teria respondido apenas a primeira parte do título da palestra, que considero a mais fácil. Afinal, ser comprometido com o estudo da medicina e tirar boas notas é uma parte muito pequena da difícil tarefa de se tornar um bom médico.

Comecei a palestra assim, mostrando que o estudante de medicina não é um estudante qualquer, de quem se espera bom desempenho acadêmico, justamente porque ele está se preparando para se tornar médico, que é um profissional diferente. Do médico, exige-se muito mais que conhecimento técnico. É comum mesmo se referir à medicina como arte, tanto quanto ofício.

É inevitável buscarmos modelos a serem seguidos e citei vários dos professores que muito influenciaram minha formação, com especial destaque ao professor Luigi Bogliolo. Mas alertei que o tal caminho do sucesso é individual e intransferível, que convoca o autoconhecimento e é tarefa árdua que só tem início e cujo destino serve mais como alinhamento de direção do que ponto de chegada.

Para além da experiência pessoal, abordei o tema da medicina como phronesis, proposto pela Dra. Kathryn Montgomery, professora emérita de Bioética da Northwestern University Feinberg School of Medicine, autora do livro How Doctors Think, clinical judgment and the practice of Medicine (Como os médicos pensam, juízo clínico e a prática da medicina, Oxford University Press,1986).

Nessa linha de pensamento, que comungo com a autora, medicina vai além da arte e da ciência. Mais que um corpo de conhecimento técnico e o desenvolvimento de habilidades, o acadêmico de medicina deve aprender o cuidado racional de pacientes, com fundamentos da melhor evidência científica, ajustando o conhecimento e a experiência às circunstâncias de cada paciente. Esse seria o exercício da medicina como phronesis, que Aristóteles (383-321 AC) define como capacidade intelectual ou virtude que pertence aos esforços práticos e não à ciência.

O exercício da medicina como phronesis seria a aplicação da razão prática, do julgamento clínico, que permite ao médico ajustar seu conhecimento e experiência às circunstâncias de cada paciente.

O desafio de se ensinar a phronesis poderia ser resumido na frase do próprio Aristóteles em sua Ética a Nicômaco: “aquilo que se deve fazer para aprender, aprende-se fazendo”.

Ao lado dessa razão prática, o estudante deve aprender e desenvolver habilidades que em seu conjunto são referidas como soft skills: comunicação, empatia, compaixão, curiosidade.

Encerro a palestra com dois temas, que abordarei na parte II: a medicina como neotenia e a construção da inteligência aliada à inteligência artificial. 

[ Leia mais ]

Posted by Jair Raso 0 comentários »

Trump e as batatas

 

Em minha peça “Uma passagem para dois”, que integra a “Mostra Jair Raso 40 anos”, escrevo que todos tempos dentro de nós uma besta irada. A frase pode parecer um bordão teatral, mas a neurociência explica sua veracidade. Na evolução do nosso cérebro a natureza não descartou nosso lado animal, que ocupa áreas e circuitos que cumprem função muito importante para nossa sobrevivência, pois nos prepara para lutar ou fugir em situações de perigo.

Mas o grande diferencial do nosso cérebro em relação ao dos animais é que ele é maravilhosamente equipado com áreas e circuitos muito maiores e complexos que dominam o cérebro mais primitivo. Se pudermos resumir a uma só palavra a importância dessa evolução basta dizer que ela é a responsável pela civilização.

A palavra civilização convoca outras similares como civilidade, cortesia, polidez, cordialidade, amabilidade. É a civilidade que permite a nossa espécie sobreviver vivendo juntos e em paz, estratégias que ao longo da história demonstraram o caminho que devemos seguir.

Toda essa introdução é para perceber que a volta de Donald Trump ao poder nos Estados Unidos é a volta de nossa besta irada, que é facilmente comprovada quando ouvimos suas propostas, algumas já transformadas em decretos.

Representante do que se chama direita radical, Trump está caçando briga com vários países e sua caneta vai provocar estragos em todo planeta. Em pouco tempo poderemos contabilizar o número de mortos em consequência da saída dos Estados Unidos da Organização Mundial da Saúde, o que representa um corte de quase metade do orçamento do órgão. O impacto negativo nos programas de saúde coletiva da OMS será inevitável.

A saída o acordo de Paris representa o desprezo ao meio ambiente, fruto do negacionismo que se estende também para outras áreas da ciência.

Mas voltando ao nosso lado animal e a peça teatral citada: está cravada em algum canto de nosso cérebro a memória que nos incita a eliminar nossos inimigos para sobrevivermos. Na peça, cito o personagem Quincas Borba, de Machado de Assis e sua fala sobre duas tribos famintas disputando um campo de batatas. O campo não é suficiente para alimentar as duas tribos, que entram em luta. Uma vence e a outra é eliminada. Ao vencedor as batatas!  

Trump e sua extrema direita não veem espaço para todos nesse mundo. Os mais fracos devem ser eliminados, deixando as batatas para os americanos mais abastados.  

Por outro lado, há uma outra escolha que sempre podemos fazer. Nossa civilização e civilidade nos fez aumentar a produção de batatas, para que as duas tribos de Quincas Borba possam sobreviver. Não há mais necessidade de se matarem e a convivência entre as duas pode e deve ser pacífica. Esse é o caminho da humanidade.

Infelizmente, o caminho da civilização não é uma reta pavimentada em direção única. Há sempre a possibilidade de voltarmos para trás.  Trump representa uma dessa voltas, a volta da besta brigando por batatas.

 

 

[ Leia mais ]

Posted by Jair Raso 0 comentários »