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Jair Raso
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Convido para o lançamento de meu livro A Caneta que Mata, dia 18 de março, das 19 às 22, na Biblioteca Pública.
Aguardo você.
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Clara Gontijo
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Final
e início de ano é sempre tempo de balanço. Lendo as resenhas das principais
publicações da minha área, divisei um passado recente onde esticar bem os
lençóis era uma das principais recomendações no tratamento dos pacientes com
acidente vascular encefálico (derrame). Lembrei-me também da alta mortalidade
das cirurgias no sistema nervoso nos primórdios da especialidade, comparando-a
com o alto índice de sucesso que temos hoje em cirurgias de tumores e
aneurismas cerebrais.
A
Medicina avança e os benefícios para a população se traduzem em maior tempo e
qualidade de vida. A cada ano, a publicação de pesquisas nos faz vislumbrar um
futuro promissor, quando saberemos mais sobre as causas, consequências,
prevenção e tratamento das doenças mais prevalentes do presente. Mas o caminho
é longo, diria mesmo infinito.
Com
os estudos de 2013, já foram identificados 22 genes associados a tipos de
enxaqueca, doença que afeta grande número de pessoas em todo o mundo. A
descoberta desses genes é um extraordinário avanço, mas que representa apenas
cerca de 15% da grande variedade desta doença tão comum.
A
causa da enxaqueca ainda é desconhecida. Uma publicação de 2013 com estudo
angiográfico por ressonância de alta resolução não mostrou nenhuma alteração no
diâmetro das artérias ou do fluxo cerebral durante episódios de enxaqueca. Até
então, pensava-se que a causa das enxaquecas estava na variação de diâmetro das
artérias. Os cientistas ainda terão
muita dor de cabeça para resolver esse dilema.
Por
outro lado, procedimentos neurocirúrgicos de alta tecnologia têm se mostrado
como o melhor remédio para tratamento de alguns tipos de dores e doenças. A
estimulação cerebral profunda tem se confirmado como método superior a
medicamentos no tratamento da Doença de Parkinson. Um importante estudo
publicado na prestigiosa revista New
England Journal of Medicine demonstrou melhora na qualidade de vida dos
pacientes com Doença de Parkinson tratados precocemente com o procedimento
cirúrgico.
A
estimulação de outra área no crânio, o gânglio esfeno-palatino, é outra
promessa cirúrgica para tratar casos refratários de cefaleia em salvas.
Nem
sempre os estudos publicados mostram sucesso. A retirada de trombos de artérias
cerebrais por meio de cateteres ainda não se mostrou eficaz. O avanço
tecnológico nesta área é estupendo, e novos estudos deverão ser realizados
antes que essa novidade científica torne-se rotineira, desde que comprovados os benefícios.
Para
a doença de Alzheimer, 2013 não foi um ano de bons resultados. Estudos com
aplicação de altas doses de imunoglobulinas, inibidores de enzimas e drogas
como a memantina não se mostraram eficazes no tratamento das demências.
A
cada ano, o corpo de conhecimentos nas neurociências interfere na maneira como
tratamos nossos pacientes hoje. E nos dá a sensação de que o aprendizado no
início de nossa formação parece coisa de um passado longínquo e que o futuro
está bem ali na esquina.
Revisão
Ophicina de Arte & Prosa
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escrever, nosso negócio é publicar
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Jair Raso
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Em torno do dia 18 de
outubro, dia de São Lucas, do médico, gostaria
de escrever algo que não fosse laudatório, atordoado que estou, como a maioria
dos médicos sérios deste país, com a política em torno da Medicina, nossa
profissão.
Alguns
entendem que o programa “Mais Médicos” tem cunho ideológico e eleitoreiro e o
atacam por isso. Penso que o problema maior deste programa “Mais Médicos” é que
ele significa menos Medicina.
Medicina
não é uma profissão como outra qualquer, que se aprende na escola, registra-se
em diploma e pronto. Medicina é um compromisso com a vida.
A vida do outro passa a fazer parte da sua vida, em constante transformação e aprendizado.
A vida do outro passa a fazer parte da sua vida, em constante transformação e aprendizado.
E
Medicina também não é apenas e tão somente o médico. Ouvir o paciente, suas
queixas e sua história, examiná-lo, dar diagnósticos, pedir exames e prescrever
são tarefas do médico. Mas Medicina mesmo é bem mais do que isso.
Não
existe boa Medicina onde não há condições de saneamento básico. Não existe
Medicina sem enfermeiras e técnicos de enfermagem. Não existe boa Medicina sem
psicólogos, fisioterapeutas e tantas áreas afins ao ato médico. Não existe
Medicina sem acesso a medicamentos. Não existe Medicina sem acesso a hospitais.
Não existe Medicina sem tecnologia de
ponta aplicada à saúde.
O
programa “Mais Médicos” é equivocado por isso. Para onde não existe Medicina,
ele quer mandar médico. Deveria primeiro mandar um engenheiro sanitarista e uma
boa escola. Sem este terreno básico e fértil não é possível florescer boa
Medicina.
E o
programa ainda peca por querer mandar para onde não existe Medicina um médico
estranho, de qualificação duvidosa e não comprovada.
O
programa peca mais ainda quando faz tudo isto de maneira autoritária, por meio
de decretos, passando por cima das instituições médicas e negociando apoio nas
instituições políticas em troca de favores de fins eleitoreiros. Esta é,
infelizmente, a forma lamentável de se fazer política no Brasil.
Já
se disse que política é algo tão sério que não deveria ficar a cargo de
políticos.
Neste
18 de Outubro, gostaria de escrever para
meu colega médico que sua atuação é política, genuíno exercício de sua cidadania, quando se debruça sobre o cidadão
e sua fragilidade.
E
que, apesar de toda a política equivocada de saúde deste governo despreparado,
ainda é possível exercer com dignidade e respeito a Medicina que aprendemos,
que continuaremos a aprender e a ensinar.
Afinal,
somos mais que estranhos profissionais a serviço de causa e ideologias alheias
à Medicina. Somos bem mais que isso. Somos médicos.
Revisão
e formatação
Ophicina de Arte & Prosa
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Jair Raso
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A constituição de 1988 reza que a
saúde é direito do cidadão e dever do Estado. Para tanto foi criado o Sistema
Único de Saúde, SUS, que nada mais é que o velho INPS. Isso significava saúde
pública e gratuita para todos. Acontece que o Estado logo percebeu que não
teria recursos nem infraestrutura para cumprir a constituição. Assim,
legalmente, foi instituída a Saúde Suplementar, que poderia ser comercializada
pelas operadoras de planos de saúde e seguradoras. Agora, diante da ineficiência deste sistema
híbrido, o Estado decide, por medida provisória, importar médicos estrangeiros
para oferecer um tipo de serviço de saúde que não está ainda muito claro.
Fica então definido que não temos
um sistema único de saúde, o SUS. Nossa Medicina, por decreto, hoje consta de
serviços públicos, serviços privados suplementares e agora sistemas
internacionais de qualificação duvidosa. É um Sistema múltiplo de Saúde, o SMS.
A população, ciente da ineficácia
do SUS e com dificuldade para pagar os planos de saúde, aprovou, segundo as
pesquisas, o SMS. Aprovou sem saber a quem vai servir um sistema tão confuso
quanto ineficaz.
Há 30 anos, quando me formei, o
sistema já era misto. Um dos médicos com os quais trabalhei, logo no início de
carreira, era funcionário federal, assalariado, e trabalhava em um posto de
saúde. Lá, atendia de graça à população. Se um cidadão necessitasse de
internação, ele emitia uma guia para o hospital privado no qual trabalhava.
Tratava o paciente neste hospital privado, e o governo pagava a conta. Se o
paciente optasse por ficar em acomodações exclusivas, o médico poderia cobrar
seus honorários diretamente.
Este médico já se aposentou.
Nestes trinta anos, não houve nenhum concurso público federal para
substituí-lo. Não é possível hoje emitir
guias de internação dessa maneira. E grande parte dos hospitais privados foi
descredenciada não podendo, portanto, tratar pacientes do SUS. E a maioria dos
hospitais que dependiam exclusivamente do SUS tornaram-se insolventes.
Tampouco é
possível ao paciente optar por fazer parte do tratamento pelo SUS e parte com
seus próprios recursos. Também por decreto, ou o paciente é público ou privado.
Desde então, os planos de saúde
proliferaram. A população com algum recurso procura por esses planos, pois têm
a garantia de um atendimento melhor que aquele oferecido pelo SUS.
Hoje o sistema de saúde
brasileiro é assim: quem não pode nada tem o SUS. Não paga nada pelo
tratamento, mas dificilmente recebe algum. Quem pode alguma coisa, tem plano de
saúde e paga por isso. E nós todos pagamos a estranha solução do médico
estrangeiro.
Penso que neste confuso samba do Brasil louco o melhor remédio é não ficar doente. Do jeito que as coisas andam, não duvido que
o Governo queira modificar, por decreto, nossa constituição: a saúde passaria a
ser um dever do cidadão e um direito do Estado.
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Jair Raso
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Para prescrever qualquer tratamento, o médico suspeita
de um diagnóstico depois de ouvir e examinar seu paciente. Se um médico erra o
diagnóstico, não é difícil prever que o tratamento também será equivocado.
Há condições clínicas de difícil diagnóstico. Um exemplo
é a Febre de Origem Obscura. O próprio nome indica que o médico tem dificuldade
de diagnosticar a causa da febre que pode ser uma infecção, um tumor ou uma rara
doença do colágeno, por exemplo. Com a ajuda de diferentes especialistas que conduzem
exames simples ou sofisticados, a causa da febre geralmente é descoberta, e o tratamento
adequado é instituído.
No caso da saúde brasileira, o problema é mais grave. Nossa
presidente, médica de plantão, não soube ouvir o grito de dor do povo, manifesto nas ruas, e fez um diagnóstico errado: precisamos
de mais médicos. De modo açodado, prescreveu um tratamento empírico: "vamos
importar milhares de médicos".
A febre popular aumentou. Afinal, o medico-cidadão não
poderia, por dever de ofício, calar-se diante deste equívoco e engrossou a voz das
ruas.
Médico despreparado é charlatão. O charlatão costuma empregar
tratamentos sem embasamento científico. Importar milhares de médicos é emplastro
para tratar febre de origem obscura.
Percebendo a ineficácia
óbvia do tratamento anterior, em menos de uma semana, outro tratamento foi prescrito,
como os antigos vomitórios para desarranjos intestinais: vamos aumentar o curso
de medicina para oito anos.
O arsenal que compõe a panaceia do governo parece inesgotável.
Além de não serem capazes de fazer o diagnóstico correto
do porquê a saúde no Brasil vai mal, como charlatães prescrevem soluções equivocadas
e deverão, em longo prazo, criar problemas maiores.
Em crônicas anteriores, chamei a atenção para "a caneta
que mata". No isolamento de seus gabinetes em Brasília, gestores de saúde de
competência duvidosa vêm dilapidando com decretos o que resta da saúde pública brasileira.
A voz do povo nas ruas serviu para que o cenário que eu
denunciava se escancarasse ainda mais. A competência destes gestores não é duvidosa.
É certo o despreparo, o destempero, a arrogância e inconsequência.
Poderíamos perdoar um político por não entender de todos
os assuntos com os quais é obrigado a lidar. Mas é imperdoável que esse político
não tenha a perspicácia e sensibilidade para perceber que está cercado de assessores
incompetentes.
Os diagnósticos e soluções para os outros grandes problemas
que o povo espontaneamente denunciou também estão sendo questionados. Mas na saúde
pública brasileira já não resta mais dúvidas. Estamos nas mãos de um governo charlatão
prescrevendo panaceias.
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A
polêmica em torno da proposta do governo de importar médicos cubanos para o
Brasil é muito bem-vinda. Afinal, estamos diante da oportunidade de discutir o
modelo de saúde que queremos.
O
Governo insiste que faltam médicos no país. Por outro lado, todas as entidades
de classe médica, Conselhos, Sindicatos e Associações comprovam exatamente o contrário.
Nos
grandes centros, há mais médicos do que o número preconizado pela Organização
Mundial de Saúde; no interior do país, a situação se inverte.
Por
que os médicos brasileiros não querem ir para o interior? A resposta é a mais simples possível: porque lá não tem Medicina.
Se
o mais longínquo município brasileiro
tivesse um posto de saúde bem equipado, com laboratório capaz de fazer exames
simples, um aparelho de Rx e uma farmácia com medicamentos para atendimento de
urgências como uma crise asmática ou hipertensiva. Este município deveria ter
um técnico de enfermagem, enfermeira, técnico de Rx e farmacêutico responsável.
Haveria também uma ambulância equipada para transporte de pacientes mais
graves.
Se
houvesse no país plano de carreira para médicos, com salários iniciais
atraentes e garantidos, duvido que faltariam médicos interessados para este
município que, infelizmente, é apenas imaginário.
A
realidade, porém, é quase inversa. Fala-se de médico para municípios sem a
mínima infraestrutura de saúde. Alardeia-se que os salários são altos, porém
tão logo o médico se instala, os salários começam a atrasar, e os contratos são
rompidos.
Hoje
a população destes municípios reais morre por falta de atendimento integral à
saúde, não por simples falta de médico.
Penso
que médicos importados de Cuba ou de qualquer outra área, praticará uma
medicina de segunda classe para cidadãos assim também considerados.
Pior
ainda – o embate do Governo contra as entidades de classe dos médicos
brasileiros não se resume à importação de médicos. O Governo quer importá-los sem a necessária e
indispensável revalidação do diploma.
Ainda
que a realidade dos pequenos municípios brasileiros fosse aquela imaginada e
não a real e faltassem os médicos brasileiros, importar médicos de qualquer
nacionalidade sem o devido preparo seria um crime.
Pois
a questão central do problema é justamente a qualificação, e não a
nacionalidade. Qualquer médico, seja cubano, mexicano, espanhol ou português, que
queira trabalhar no Brasil tem de passar por provas que atestem sua qualificação.
Insistir
nessa política desastrosa será o mesmo que assumir que haverá no Brasil dois
tipos de médicos: aqueles devidamente qualificados e registrados que tratarão
da parcela de brasileiros que podem pagar
e exigir, e os outros que farão a
política de saúde destinada à população que não merece tanto zelo.
As
entidades de classe médica estão preocupadas, sobretudo com a qualidade dos
médicos.
O
Governo, com a quantidade. Afinal, para um cidadão de segunda classe, qualidade
seria luxo.
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