Atuação

• Coordenador do Serviço de Neurocirurgia e Neurologia do Hospital Unimed BH • Neurocirurgião do Biocor Instituto, Belo Horizonte, MG Membro Titular da Academia Mineira de Medicina • Membro Titular da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia • Membro do Congresso of Neurological Surgeons • Mestrado e Doutorado em Cirurgia pela UFMG

Especialidades

• Malformação • Artério Venosa • Aneurisma Cerebral • Cirurgia de Bypass • Revascularização Cerebral • Cirurgia de Carótida • Tumores Cerebrais • Descompressão Neurovascular • Doença de Moya-Moya Tumores da Base do Crânio Doppler Transcraniano

Contato

Alameda da Serra 400 / 404 - Nova Lima - MG (31)3264-9590 • (31) 3264-9387 jrasomd@yahoo.com.br

Neuroanatomia, uma paixão

 


 

Às vésperas de estrear um novo espetáculo inspirado na vida e obra do professor Ângelo Machado, “Angelim, professor de humor”, sinto uma alegria diferente. Penso que escrevi esse espetáculo não apenas para homenagear esse grande brasileiro, mas para celebrar uma paixão comum, a neuroanatomia.

O livro de Ângelo Machado, Neuroanatomia Funcional, foi sem dúvida o que mais estudei durante toda minha formação. Primeiro como aluno de medicina, driblando as dificuldades de memorizar e identificar tantos nomes e funções do mais elaborado mistério do universo, nosso sistema nervoso. Depois, como residente de neurocirurgia, voltava ao livro de Ângelo Machado para correlacionar sinais e sintomas de doenças neurológicas e neurocirúrgicas com precisa base anatômica. Já formado, fui professor de neuroanatomia na Faculdade de Medicina de Barbacena e na UFMG.

Esse conhecimento básico foi fundamental para o aprendizado da  neuroanatomia sob o microscópio cirúrgico. Para além do domínio técnico da microcirurgia, é o conhecimento dessa neuroanatomia aplicada que permite ao neurocirurgião abordar lesões complexas no cérebro e na medula, mudando o curso de doenças que provocariam a morte ou sequelas graves.

Quando conheci pessoalmente o professor Ângelo Machado, ele já havia se aposentado da medicina e prestado concurso para professor de zoologia na UFMG, onde passou a ensinar outra área de seu interesse: os insetos. O maior colecionador de libélulas do mundo passou a se dedicar também à literatura e ao teatro. E foi no teatro que me aproximei dele, fruto de amizades comuns com Jota Dangelo, meu grande mestre das artes cênicas, e sua mulher, Mamélia Dornelles, responsável pela montagem das peças infanto-juvenis do professor. Mais tarde, passamos a conviver na Academia Mineira de Medicina.

Ângelo Machado dedicou sua vida de médico ao ensino da neuroanatomia e a pesquisas, com destaque para seus estudos sobre a glândula pineal.

Se tínhamos em comum a paixão pela neuroanatomia, foi o teatro que nos uniu.

Minha peça “Angelim, professor de humor” é isso: a celebração de um encontro de paixões pela neuroanatomia e pelo teatro, que se transformam em pano de fundo para contar parte da história desse ilustre brasileiro, médico, pesquisador, escritor, ambientalista, zoologista e dramaturgo Ângelo Machado.  E tudo isso com humor, marca registrada do professor.

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Envelheça bem

 

Os avanços da medicina ajudam as pessoas a viver mais e com melhor qualidade de vida graças à prevenção e tratamento de doenças próprias do idoso, que ganharam espaço na prática médica fundamentada em evidências científicas.

O problema é que as pessoas não querem envelhecer e buscam a eterna juventude percorrendo solo minado por promessas de drogas milagrosas, que prometem o que não cumprem e, pior, colocam em risco a saúde.

Além de suplementos alimentares com antioxidantes, vitaminas e sais minerais sem a devida evidência de eficácia para barrar o envelhecimento, a prescrição de hormônios tem sido comum. O problema é que nenhum hormônio mostrou até hoje ser capaz de barrar o envelhecimento e muito menos de rejuvenescer. Pior que isso, há riscos comprovados do seu uso indiscriminado.

Um exemplo é a prescrição do GH, hormônio do crescimento, para pessoas sem deficiência desse hormônio, no intuito de melhorar a disposição, ganhar massa muscular e fortalecer os ossos. Além de não ter comprovação, há riscos de desenvolvimento de diabetes, hipertensão e até câncer.

O uso de medicamentos sem respaldo científico fere o código de ética médica e muitos médicos já foram punidos pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) por prescrições temerárias e publicidade sensacionalista e enganosa.

Se por um lado os hormônios e antioxidantes estão na berlinda, existem evidências que sustentam os benefícios da mudança de alguns hábitos para um envelhecimento mais saudável. E o que é melhor, esses hábitos não têm contraindicações:

  • Estimule seu cérebro: assim como o resto do corpo, o cérebro precisa de exercícios: leia, ouça música, aprenda algo novo todos os dias;
  • Faça uma alimentação saudável: beba água, coma frutas, grãos e vegetais para suprimento adequado de vitaminas e minerais;
  • Pratique exercícios: a prática de exercícios aeróbicos é o melhor antídoto para a perda da massa muscular e da densidade óssea, associadas ao envelhecimento;
  • Durma bem: o cérebro necessita do sono para funcionar melhor. E seu corpo também.
  • Cuide do espírito: seja por meditação, preces, ou outras práticas religiosas. Cuidar do espírito é tão importante quanto cuidar do corpo;
  • E divirta-se, com humor e alegria, únicas formas de manter a juventude.

Uma vez mais jovens com a prática desses bons hábitos, teremos serenidade para seguir a recomendação de Nelson Rodrigues, o maior dramaturgo brasileiro. Perguntado sobre qual conselho gostaria de deixar para os jovens, ele foi taxativo:

-Envelheçam!


Nota: Crônica selecionada no Concurso Literário de Crônicas e Contos da Unimed-BH, em comemoração do dia do médico. Foi  publicada no livro "Reconectar-se", distribuído no 

200 Encontro de Cooperados, outubro, 2025.

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Caminho do Sucesso Acadêmico – Parte II: Neotenia e a inteligência construída X artificial

 


palavra Neotenia vem do grego neo (novo, novidade) e teinein, que significa estender, prolongar. O termo vem da biologia e se refere a organismos adultos que mantém traços infantis. O exemplo clássico de neotenia é o Axolotle, a salamandra mexicana, que mantem na idade adulta características larvais, como as brânquias externas, que lhe conferem um aspecto juvenil.

Na antropologia, o estudo da evolução da espécie humana considera que a neotenia exerce um papel central, tanto do ponto de vista biológico como comportamental.  Comparado a outros primatas, o homo sapiens adulto têm características físicas consideradas juvenis, como o crânio arredondado, a pequena mandíbula, a ausência de pelos e a postura ereta. Nosso cérebro tem desenvolvimento muito lento, mas com altíssima plasticidade neuronal, que nos permite melhor adaptação ao ambiente e a manutenção da capacidade de aprendizado por toda vida. Nossa constante curiosidade, essencial para inovação e para o pensamento científico e criativo é considerada uma característica neotênica.

Do ponto de vista de comportamento, por questões de sobrevivência desenvolvemos fortes vínculos familiares e sociais com extraordinária capacidade de afeto, empatia e cooperação. A neotenia permite nossa inserção e adaptação a redes de socialização complexas, criando e adotando regras e valores, que passam de geração a geração.

E o que a neotenia tem a ver com o a medicina e seu ensino. Por ser a mais humana das profissões, penso que o aprimoramento de nossas melhores características neotênicas deve ser a base da formação do médico. São exemplos de habilidades neotênicas que temos que aprimorar e ensinar: o comprometimento com o aprendizado por toda vida, o fortalecimento de laços sociais e cooperativos e o trabalho em equipe. Empatia, resiliência, plasticidade, flexibilidade e curiosidade, todas características neotênicas de todo bom médico e demais profissionais da saúde.

E o que a neotenia tem a ver com inteligência artificial? Nossa inteligência genuína não é dada, mas construída, exigindo de nós grande empenho e esforço por toda uma vida. A neotenia nos ajuda a plasmar um cérebro inteligente, adaptável e criativo, capaz de aprender, mudar e se adaptar a partir das experiências.

É a neotenia que nos capacita para encarar a inteligência artificial (IA) não como uma oposição à nossa inteligência, mas como uma oportunidade para ampliá-la. O uso da IA como ferramenta de ensino e aprendizagem, bem como na prática médica cotidiana, no atendimento em consultórios, ambulatórios e mesmo à beira do leito já é uma realidade sem retorno.

O desafio será como usar essas engenhocas eletrônicas e ao mesmo tempo aprimorar nossas características neotênicas. Ou seja, como nos tornar cada vez mais humanos para cuidar do ser humano.

Assim podemos resumir o caminho do sucesso acadêmico: se inspirar no modelo, mas fazer o próprio caminho, tendo como base o autoconhecimento; praticar a medicina como phronesis, para além da arte e ciência, procurando ser soft com nossas skills e aprimorar nossas melhores qualidades neotênicas.

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Caminho do Sucesso Acadêmico – Parte I: Phronesis e Soft skills

Caminho do Sucesso Acadêmico – Parte I: Phronesis e Soft skills

 

Fui convidado por alunos da Faculdade de Medicina de Barbacena para proferir a palestra de abertura do I Congresso de Especialidades e Carreira Médica, organizado por eles e realizado entre os dias 21 e 23 de maio.

Fiquei muito feliz com o convite, não só por me dar oportunidade de retornar à faculdade onde me formei, mas sobretudo pelo desafio do tema proposto por eles para a palestra: “O Caminho para o Sucesso Acadêmico; Condutas essenciais para médicos em formação”.

Poderia abordar o tema sob minha perspectiva como acadêmico de medicina, encarando o sucesso de ter sido primeiro aluno. Mas se fosse por esse caminho, teria respondido apenas a primeira parte do título da palestra, que considero a mais fácil. Afinal, ser comprometido com o estudo da medicina e tirar boas notas é uma parte muito pequena da difícil tarefa de se tornar um bom médico.

Comecei a palestra assim, mostrando que o estudante de medicina não é um estudante qualquer, de quem se espera bom desempenho acadêmico, justamente porque ele está se preparando para se tornar médico, que é um profissional diferente. Do médico, exige-se muito mais que conhecimento técnico. É comum mesmo se referir à medicina como arte, tanto quanto ofício.

É inevitável buscarmos modelos a serem seguidos e citei vários dos professores que muito influenciaram minha formação, com especial destaque ao professor Luigi Bogliolo. Mas alertei que o tal caminho do sucesso é individual e intransferível, que convoca o autoconhecimento e é tarefa árdua que só tem início e cujo destino serve mais como alinhamento de direção do que ponto de chegada.

Para além da experiência pessoal, abordei o tema da medicina como phronesis, proposto pela Dra. Kathryn Montgomery, professora emérita de Bioética da Northwestern University Feinberg School of Medicine, autora do livro How Doctors Think, clinical judgment and the practice of Medicine (Como os médicos pensam, juízo clínico e a prática da medicina, Oxford University Press,1986).

Nessa linha de pensamento, que comungo com a autora, medicina vai além da arte e da ciência. Mais que um corpo de conhecimento técnico e o desenvolvimento de habilidades, o acadêmico de medicina deve aprender o cuidado racional de pacientes, com fundamentos da melhor evidência científica, ajustando o conhecimento e a experiência às circunstâncias de cada paciente. Esse seria o exercício da medicina como phronesis, que Aristóteles (383-321 AC) define como capacidade intelectual ou virtude que pertence aos esforços práticos e não à ciência.

O exercício da medicina como phronesis seria a aplicação da razão prática, do julgamento clínico, que permite ao médico ajustar seu conhecimento e experiência às circunstâncias de cada paciente.

O desafio de se ensinar a phronesis poderia ser resumido na frase do próprio Aristóteles em sua Ética a Nicômaco: “aquilo que se deve fazer para aprender, aprende-se fazendo”.

Ao lado dessa razão prática, o estudante deve aprender e desenvolver habilidades que em seu conjunto são referidas como soft skills: comunicação, empatia, compaixão, curiosidade.

Encerro a palestra com dois temas, que abordarei na parte II: a medicina como neotenia e a construção da inteligência aliada à inteligência artificial. 

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Trump e as batatas

 

Em minha peça “Uma passagem para dois”, que integra a “Mostra Jair Raso 40 anos”, escrevo que todos tempos dentro de nós uma besta irada. A frase pode parecer um bordão teatral, mas a neurociência explica sua veracidade. Na evolução do nosso cérebro a natureza não descartou nosso lado animal, que ocupa áreas e circuitos que cumprem função muito importante para nossa sobrevivência, pois nos prepara para lutar ou fugir em situações de perigo.

Mas o grande diferencial do nosso cérebro em relação ao dos animais é que ele é maravilhosamente equipado com áreas e circuitos muito maiores e complexos que dominam o cérebro mais primitivo. Se pudermos resumir a uma só palavra a importância dessa evolução basta dizer que ela é a responsável pela civilização.

A palavra civilização convoca outras similares como civilidade, cortesia, polidez, cordialidade, amabilidade. É a civilidade que permite a nossa espécie sobreviver vivendo juntos e em paz, estratégias que ao longo da história demonstraram o caminho que devemos seguir.

Toda essa introdução é para perceber que a volta de Donald Trump ao poder nos Estados Unidos é a volta de nossa besta irada, que é facilmente comprovada quando ouvimos suas propostas, algumas já transformadas em decretos.

Representante do que se chama direita radical, Trump está caçando briga com vários países e sua caneta vai provocar estragos em todo planeta. Em pouco tempo poderemos contabilizar o número de mortos em consequência da saída dos Estados Unidos da Organização Mundial da Saúde, o que representa um corte de quase metade do orçamento do órgão. O impacto negativo nos programas de saúde coletiva da OMS será inevitável.

A saída o acordo de Paris representa o desprezo ao meio ambiente, fruto do negacionismo que se estende também para outras áreas da ciência.

Mas voltando ao nosso lado animal e a peça teatral citada: está cravada em algum canto de nosso cérebro a memória que nos incita a eliminar nossos inimigos para sobrevivermos. Na peça, cito o personagem Quincas Borba, de Machado de Assis e sua fala sobre duas tribos famintas disputando um campo de batatas. O campo não é suficiente para alimentar as duas tribos, que entram em luta. Uma vence e a outra é eliminada. Ao vencedor as batatas!  

Trump e sua extrema direita não veem espaço para todos nesse mundo. Os mais fracos devem ser eliminados, deixando as batatas para os americanos mais abastados.  

Por outro lado, há uma outra escolha que sempre podemos fazer. Nossa civilização e civilidade nos fez aumentar a produção de batatas, para que as duas tribos de Quincas Borba possam sobreviver. Não há mais necessidade de se matarem e a convivência entre as duas pode e deve ser pacífica. Esse é o caminho da humanidade.

Infelizmente, o caminho da civilização não é uma reta pavimentada em direção única. Há sempre a possibilidade de voltarmos para trás.  Trump representa uma dessa voltas, a volta da besta brigando por batatas.

 

 

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A neurociência é a minha Grécia, onde o Teatro e a Medicina se reencontraram

 Em junho de 2019, fui convidado pela Fundação Educacional Lucas Machado (FELUMA) para ser o seu curador de arte e cultura. As obras para o Teatro Feluma tinham apenas começado. Na mesma época fui contratado como professor da cadeira optativa de Neurocirurgia do curso de Medicina com o compromisso de ministrar outra matéria que ajudasse os alunos a desenvolverem suas soft skills, recomendação do MEC para cursos na área da saúde para desenvolver nos alunos habilidades de comunicação, empatia e compaixão.  Foi assim que introduzi uma matéria inédita em currículos da área de saúde: Neurociência e artes cênicas aplicadas à saúde. 

Em fevereiro de 2020, ofereci a matéria, optativa para todos os cursos da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais: Medicina, Enfermagem, Psicologia e Fisioterapia. O curso seria teórico/prático presencial, mas   teve que ser adaptado para uma versão on-line, devido à pandemia, decretada em março daquele ano. Em junho, após uma trégua do isolamento e o devido distanciamento, a primeira turma subiu ao palco do Teatro Feluma para o encerramento do curso, com apresentação de cenas curtas elaboradas e ensaiadas on-line. Desde então o curso é ministrado desde então, sendo também matéria optativa para novo curso de Odontologia da Faculdade Ciências Médicas. 

O conteúdo do curso nasceu de minha experiência com atores profissionais na montagem de peças de Teatro. Desde 2002, utilizo no meu trabalho de diretor teatral os conhecimentos oriundos da neurociência, concomitante ao método de Constantin Stanislaviski (1863-1938), célebre ator e diretor russo. 

Da neurociência trago as descobertas relativamente recentes sobre a especialização dos hemisférios cerebrais, notadamente aquelas do hemisfério direito (HD), além de outros conhecimentos bem estabelecidos, tais como os mecanismos neurais da memória, da atenção e das emoções. 

O objetivo era o de utilizar exercícios direcionados para estimular as funções do HD, no intuito de facilitar o trabalho dos atores na memorização de textos e ampliar sua criatividade. 

Esse método já foi utilizado nos ensaios de oito peças teatrais, seis delas de minha autoria:  Três Mães (2002), A corda e o livro (2004), Julia e a memória do futuro (2006), DDD, deleite, depois delete (2016), Maio, antes que você me esqueça (2020), Uma passagem para dois (2024). O método foi utilizado também nos ensaios de outras duas peças: O Palco Iluminado (2019), de Rogério Falabella e O Belo Indiferente (2022), de Jean Cocteau.  O Palco Iluminado foi a peça que marcou a estreia do Teatro Feluma. 

Durante os ensaios foram utilizados exercícios para estimular as atividades de áreas do cérebro cuja dominância é atribuída ao HD. O objetivo era o de promover a plasticidade cerebral no intuito de facilitar o trabalho dos atores e aguçar sua criatividade. 

Participaram das peças 15 artistas, sendo 10 homens e 5 mulheres, com idade variando de 20 a 84 anos. Um ator e uma atriz participaram de duas montagens: Marcelo do Vale, aos 21 e 43 anos (Três mães e Uma Passagem para dois, respectivamente) e Juçara Costa aos 55 e 65 anos de idade (espetáculos Julia e a memória do futuro, em 2006 e DDD, deleite, depois delete, de 2016). 

Na 50ª. Campanha de popularização do Teatro e da Dança de Belo Horizonte, participo com uma mostra de cinco trabalhos: Uma passagem para dois, Maio, antes que você me esqueça, Julia e a memória do futuro, O belo indiferente e o musical Chico Rosa.

Sigo ministrando as duas matérias na Faculdade Ciências Médicas, de forma alternada: no primeiro semestre, neurociências e artes cênicas aplicadas à saúde; no segundo semestre, Tópicos em Neurocirurgia. 

Unir neurociências e artes cênicas foi a forma que encontrei para conviver pacificamente com duas profissões tão distintas que abracei.   

O corpo de conhecimento médico da Grécia antiga e o Teatro grego saíram do mesmo berço e foram fundamentais para nossa civilização.  Por isso, costumo dizer que a neurociência é minha Grécia, onde o médico e o artista de teatro se reencontraram.

 

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Brain Rot: isso não está me cheirando bem

 


 

O uso excessivo de conteúdos digitais, muita vez gerados por inteligência artificial, está comprometendo a inteligência humana.

Ninguém questiona que as pessoas consumem de modo excessivo o conteúdo online, especialmente em seus smartphones.  

Se algum Da Vinci do futuro for desenhar um novo Homem Vitruviano, certamente o faria com o pescoço inclinado, fruto de uma pseudoartrose entre as quartas e quintas vértebras cervicais provocada pela posição em que se lê as telas dos celulares.

Quem dera o problema fosse apenas esse. O conteúdo superficial de textos mergulhados numa profusão de imagens inunda o cérebro com informações de relevância duvidosa, dificultando a aquisição de conhecimento.

Não há espaço para imaginação. Não há tempo para leituras demoradas. Não há estímulo para reflexões. Em meio a tanta informação, vai sendo criado um universo de desinformados, que têm opinião pouco qualificada sobre qualquer tema, pois sabem quase nada de quase tudo.

Assim está sendo criado o cérebro podre. Brain rot, em tradução literal é isso mesmo: o apodrecimento do cérebro.

Essa palavra foi escolhida pela Oxford University Press como a palavra do ano 2024.

Definida como “deterioração intelectual resultante do consumo excessivo de conteúdos triviais e pouco desafiadores”, brain rot é mesmo uma questão inequívoca de saúde mental.

Vamos assumir que estamos todos viciados em smartphones, telefones inteligentes que estão nos tornando cada vez mais limitados intelectualmente. Instagram, tik-tok, zaps, face e similares em dose excessiva são venenos. Precisamos nos desintoxicar.  

O antídoto é a leitura, a arte, o estudo aprofundado de temas que nos interessam, atividade física, mais conversa e convívio social.

Se 2024 foi o ano do brain rot, desejar um ano novo diferente é mais que necessário.

Afinal esse tal de brain rot não cheira nada bem.    

 

 

 

 

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Telefone celular e tumor cerebral: alguma ligação?

 O uso e abuso do telefone celular levanta a questão do risco de desenvolvimento de tumores do sistema nervoso central. 

Há muitos estudos sobre o assunto e, apesar das controvérsias, não há evidência robusta que suporte a relação entre o uso do telefone celular e o desenvolvimento de tumores como os meningeomas, gliomas e neuroma do acústico. 

Parte da dificuldade das pesquisas se deve às transformações do uso do celular, que deixou de ser apenas um aparelho para ligação telefônica para se transformar em conjunto de aplicativos que permite ao usuário fazer tarefas como ir ao banco, pagar boletos, ler e enviar mensagens, assistir a filmes e, sobretudo navegar no instagram e se comunicar pelo Zap. Até mesmo o já velho e tradicional email pode ser acessado. Os  smartphones são cada vez mais capazes de resolver nossos problemas, seja como ferramenta de trabalho ou laser. 

Isso aumenta o tempo de exposição à radiação eletromagnética dos aparelhos, usados bem próximo do crânio. 

Para além da dificuldade de se medir o tempo de exposição, hábitos com uso de fones de ouvido, ou conexões do aparelho com computadores de mesa, afastam o celular do corpo, tornando ainda mais complexa a avaliação dos possíveis efeitos deletérios, como um possível aumento da incidência de tumores. 

Uma coisa é certa, o celular, desde sua  estreia em nossas vidas na década de 1990 é hoje o protagonista dos acessórios, a ponto de algumas vezes até parecer uma extensão do nosso corpo. 

Um estudo prospectivo publicado recentemente na revista Enviroment International, o COSMOS, Cohort Study of Mobile Phone Use and Health, concluiu que o uso cumulativo de celulares não está relacionado com o risco de desenvolvimentos de tumores cerebrais como gliomas, meningeomas e neuromas.  




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O Desafio do Ensino da Neurocirurgia- Parte 3

 

A sistematização do ensino na Residência/especialização em neurocirurgia ao longo dos cinco anos do programa não passa de um primeiro passo.

Como ensinar uma especialidade de grande demanda técnica e teórica? 

Abrir uma cabeça ou uma coluna não é tarefa fácil; lidar com a patologia é um desafio ainda maior. a reconstrução é sempre desafiadora e  o pós operatório exige cuidados intensivos especializados. 

O residente tem que compreender e dominar cada uma dessas etapas do procedimento neurocirúrgico. Negligenciar pormenores da técnica pode ser o divisor entre bom e o mau resultado de um procedimento neurocirúrgico. 

No passado, a gravidade das doenças neurocirúrgicas e a limitação dos métodos de imagem agiam com um véu, encobrindo imperícias. Hoje, conhecemos mais sobre a história natural das patologias neurocirúrgicas e podemos documentar melhor os procedimentos. 

Nem sempre é fácil distinguir uma complicação inevitável de uma imperícia que resulta em evento adverso para o paciente. 

Não resta dúvida que o mote aristotélico, citado na epígrafe dessa série de artigos sobre o ensino da neurocirurgia, é a única saída. Não há outro modo de aprender a especialidade senão praticando-a ao lado de um profissional já previamente treinado. 

A Sociedade Brasileira de Neurocirurgia exige que num programa credenciado tenha no mínimo cinco especialistas titulados. Espera-se que esses especialistas estejam lado a lado com os residentes, ensinando a especialidade com os rigores de seus detalhes.  Sobretudo, espera-se que ele consiga ensinar com evitar seus próprios erros, pois aprendemos mais com eles do que com os acertos. Mas aprender com os erros dos outros é ainda melhor na construção do conhecimento, que assim vai passando de uma mão à outra: do titulado para o R5, deste para o R4 e assim por diante. 

Mas se para aprender tenho que fazer, como fica o paciente nessa história? 

Lembro-me bem de um caso que era contado sempre à boca pequena, a respeito de um professor muito conceituado. Ele foi prestar concurso para ser admitido como neurocirurgião em uma Instituição, que exigia que ele fizesse um procedimento neurocirúrgico. Deveria demonstrar para uma banca seus conhecimentos e sua técnica. Era um procedimento considerado simples, uma hérnia de disco lombar. Houve uma complicação grave, uma lesão vascular que levou o paciente ao óbito. Felizmente, esse tipo de concurso não é mais realizado. E o caso em questão, deixou de ser um segredo quando o próprio cirurgião contou sua experiência em um congresso da especialidade, dando aula para seus pares. 

A realização de procedimentos mais simples pode ser aprendida e ensinada de mão em mão. Á medida que o residente vai dominado as praxias, ele adquire a competência necessária. O aprendizado de procedimentos mais complexos exige uma abordagem diferente. 

O treinamento em cadáveres em laboratório especializado é a forma mais adequada. 

Trabalhamos em um desses laboratórios, na Universidade George Washington, onde dispunha de todo o arsenal neurocirúrgico e cabeças especialmente preparadas para similar os procedimentos complexos. Os residentes tinham oportunidade de verem replicados no laboratório o passo a passo dos procedimentos realizados no bloco. 

No próximo artigo, vamos falar mais sobre esse modelo de ensino, que consideramos   ideal para o aprendizado de técnicas cirúrgicas complexas, como é o caso da maioria dos procedimentos neurocirúrgicos. 

 

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O Desafio do Ensino da Neurocirurgia- Parte 2

 

Para além da modalidade, Residência ou Especialização, com suas vantagens e desvantagens características, o maior desafio do ensino da neurocirurgia é o de como ensinar uma especialidade que exige vasto conhecimento teórico com praxias complexas para lidar com o Sistema Nervoso Central.

A imersão na rotina de trabalho de um grande serviço é o primeiro passo. Mas o caminho é longo e árduo para adquirir as competências necessárias. A Sociedade Brasileira de Neurocirurgia (SBN) e o MEC estipularam o tempo de formação do neurocirurgião em 5 anos. Assim, depois dos seis anos para se tornar médico, o residente ainda vai   dedicar-se por mais de 13000 horas de trabalho para então, e só então, começar sua carreira na neurocirurgia.

Imerso em serviço de alta demanda, no primeiro ano o residente passa por um estágio de neurologia clínica, que tem a duração de 6 a 8 meses ou, em alguns casos, até um ano. Ao final desse estágio, ele deve ter o domínio do exame neurológico e noções básicas de doenças neuroclínicas. Deve também estudar a fundo a neuroanatomia aplicada à neurocirurgia, bem mais complexa que aquela que já estudou em seu curso de medicina. Além disso, tem que aprofundar seus conhecimentos de neurofisiologia e embriologia aplicadas à neurocirurgia, bem como adquirir noções de bioética e aplica-las no dia a dia.  Ainda nesse primeiro ano de residência ele deve aprender a interpretar   exames neurorradiológicos além de ter práticas no bloco cirúrgico, incluindo a instrumentação cirúrgica, diversa daquela de outras especialidades.

No segundo ano, o residente já participa mais das rotinas do bloco cirúrgico, aprendendo as técnicas neurocirúrgicas básicas e realizando pequenos procedimentos. Nesse ano ele faz estágio de neuroatrauma e neurointensivismo. No campo teórico, estuda neuropatologia e aprofunda seus conhecimentos de bioética e interpretação de exames neurorradiológicos.

Ao chegar ao terceiro ano o residente já realiza procedimentos mais complexos e passa a lidar com neurooncologia e doenças cerebrovasculares. Também é introduzido às técnicas de diagnóstico e tratamento endovasculares.  

Já no quarto ano, o residente passa a realizar procedimentos de Neurocirurgia funcional, técnicas cirúrgicas dos aneurismas cerebrais e malformações arteriovenosas do encéfalo e da medula espinhal, tumores da base do crânio e neuroendoscopia.

Finalmente, no quinto ano, o residente consolida sua experiência cirúrgica e faz estágios em neurocirurgia funcional, pediátrica e neurorradiologia intervencionista.

Durante todo o treinamento o residente trabalha junto com um neurocirurgião titulado. Além da avaliação no serviço, a SBN aplica uma prova ao final de cada ano de residência e a prova final para obtenção do título de especialista.

Durante todos os anos os residentes aprendem as etapas de elaboração de trabalho científico, têm noções de bioestatística e dão inúmeras aulas sobre os diversos tópicos da especialidade, seja nas reuniões científicas de cada serviço, seja em congressos. Além disso, treina técnicas microcirúrgicas em laboratório de microcirurgia.

Ao final desse árduo programa de aprendizado espera-se que o neurocirurgião tenha adquirido o treinamento necessário para realizar a maioria dos procedimentos neurocirúrgicos, com domínio técnico e comportamento ético e cordial. Além disso, espera-se que saiba trabalhar em equipe valorizando a interação com os demais profissionais

 

 

 

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O Desafio do Ensino da Neurocirurgia- Parte 1


 

                                                                       “Aquilo que se deve fazer para aprender,

                                                                       aprende-se fazendo. ”

                                                                       Aristóteles, Ética a Nicômaco

 

Tive oportunidade de montar dois serviços para o ensino da neurocirurgia: um na modalidade de Especialização, e outro na de Residência Médica, ambos credenciados pela Sociedade Brasileira de Neurocirurgia (SBN), que estabelece critérios rigorosos para o ensino da especialidade.

Mas afinal, qual a diferença entre Residência e Especialização?

A confusão não é incomum, a começar pela própria definição de Residência feita pelo Ministério da Educação (MEC) em seu site: “A residência médica é uma modalidade de ensino de pós-graduação destinada a médicos, sob a forma de curso de especialização”.

Apesar de parecer confuso, a distinção é bem simples. Residência é uma modalidade de pós-graduação médica, cujas regras são estabelecidas pelo MEC por meio de uma Lei, a LEI No 6.932, DE 7 DE JULHO DE 1981. Desde então, várias alterações foram feitas, sempre através de leis. Portanto, os critérios da residência médica são bem conhecidos, bem como os deveres e obrigações dos residentes, médicos e das Instituições. O salário do residente (na verdade uma bolsa de R$ 4.106,09) e a carga horária semanal de 60 horas é determinada pelo MEC. No caso da neurocirurgia, a duração da Residência é de 5 anos. Ao final do programa, o médico já é considerado especialista e pode registrar-se no Conselho Regional de Medicina e obter seu RQE, o Registro de Qualificação de Especialista, documento que comprova sua especialização como neurocirurgião.

Especialização médica é também uma modalidade de pós-graduação, mas não é regida por nenhuma lei específica. O MEC considera pós-graduação sensu lato qualquer curso, de qualquer área, ministrado por uma Instituição de Ensino Superior (IES), que tenha a duração mínima de 360 horas.

De um modo geral, os programas de especialização médica se espelham nos programas de residência. Até há poucos anos, a SBN credenciava serviços para especialização em neurocirurgia, estabelecendo critérios técnicos bem definidos, como número mínimo de preceptores, infraestrutura, volume de cirurgias dentre várias outras exigências.

Quanto à remuneração do especializando, não há regras. Há programas que pagam o mesmo valor estipulado pela Lei da Residência Médica, enquanto a maioria faz o contrário, cobra do especializando. Num programa tão extenso, como o de neurocirurgia, isso acaba por jogar o médico numa jornada insana de trabalho, pois não raro ele dá plantões remunerados para arcar com sua formação.

Ao final de um programa de especialização ainda é necessário ao especializando submeter-se a uma prova de Título de Especialista, elaborada pela SBN.

Tanto a Residência, quanto a especialização não exigem dedicação exclusiva. Mas, na prática, é muito complicado estender a jornada de trabalho.  Na neurocirurgia, quase invariavelmente, o médico especializando ou residente trabalha mais que as 60 horas semanais estipuladas.

Em 1999, solicitei o credenciamento para Especialização em Neurocirurgia para nosso serviço no Hospital Biocor, de Belo Horizonte, que após ser vistoriado e aprovado pela comissão de credenciamento da SBN, passou a receber para treinamento um neurocirurgião por ano. Além de toda infraestrutura, contava o especializando com 10 preceptores especializados nas diferentes subáreas da neurocirurgia e com o maior número anual de procedimentos num hospital privado do Estado de Minas Gerais.

Desde 2006, o programa passou a ter a chancela da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais.

A SBN juntou forças com o MEC para que o credenciamento de serviços fosse feito de forma conjunta pelas duas entidades. Mais que isso, a SBN solicitou que todos os serviços credenciados por ela migrassem para a modalidade Residência. Em nosso serviço no Biocor, isso foi feito a partir de 2022.

Passei a coordenar o serviço de Neurocirurgia do recém-criado Hospital da Unimed BH em 2010, criado para atender à crescente demanda da operadora por procedimentos de alta complexidade na neurocirurgia. O hospital tornou-se rapidamente a maior referência de pronto atendimento em hospitais privados do Estado, além de fazer altíssimo volume de procedimentos eletivos de alta complexidade em neurocirurgia. A partir de 2016, o serviço foi credenciado pelo MEC e pela SBN para ofertar uma vaga para o novo programa de Residência Médica em Neurocirurgia.

Para além da modalidade, Residência ou Especialização, com suas vantagens e desvantagens características, o maior desafio do ensino da neurocirurgia é o de como ensinar. É o que trataremos na parte dois deste artigo. 


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Substituição Sensorial e Plasticidade Cerebral

 


 

Os substitutos sensoriais são bons representantes dos maiores avanços da ciência e tecnologia aplicadas à Medicina.

Um exemplo é o implante coclear, indicado para restituir a audição em pessoas cuja surdez é devida a disfunção grave do órgão receptor auditivo, localizado na orelha interna, a cóclea.

Há dois momentos distintos na captação dos estímulos sonoros:  Primeiro, as ondas sonoras são transmitidas desde a orelha externa, membrana timpânica e ossículos da orelha média até a cóclea.  No segundo momento, células ciliadas da cóclea convertem a energia mecânica das ondas sonoras em sinais elétricos, que serão conduzidos até o cérebro pelo nervo auditivo.

Portanto, há dois tipos de surdez: A mais comum é a surdez de condução, quando a transmissão da orelha externa está prejudicada. Esse tipo de surdez pode ser contornado com uso de aparelhos auditivos.

O outro tipo de surdez, chamada neurosensorial, é devida a lesão dos receptores auditivos na orelha interna. O uso de aparelho auditivo nesse caso não resolve o problema, uma vez que as ondas sonoras não serão convertidas em sinais elétricos, única forma que o cérebro utiliza para processar o estímulo sonoro.  

Apesar de pesquisas demonstrarem ser possível estimular diretamente a cóclea, não havia tratamento para a surdez neurosensorial, até o final da década de 1970 Foi o avanço dessas pesquisas e o concurso de múltiplos especialistas de diversas áreas que tornou possível o desenvolvimento do implante coclear.

A primeira cirurgia de implante coclear foi realizada por um otorrinolaringologista australiano, Graeme Clark, em 1978.

Como funciona? Através de uma cirurgia na porção mastoide do osso temporal, atrás da orelha, um microeletrodo é inserido dentro da cóclea. A cóclea parece um caracol e os eletrodos distribuem as diversas tonalidades de sons ao longo de sua extensão. Esse microeletrodo é conectado a um processador auditivo, implantado sob a pele, abaixo da incisão cirúrgica.   Por sua vez, esse processador capta os sons de um microfone colocado atrás da orelha, semelhante aos aparelhos auditivos externos. Assim é possível transformar os sons em estímulos elétricos que são captados diretamente pelo nervo auditivo.

Inicialmente, o cérebro tem dificuldades para interpretar esses novos estímulos sonoros. Com o tempo e treinamento os estímulos transmitidos pelos microeletrodos   passam a ser interpretados pelo córtex auditivo, restaurando-se assim a capacidade de se ouvir e escutar.

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Isto só é possível graças a grande plasticidade de nosso cérebro. Diante de um estímulo novo, diferente, nosso cérebro é capaz de alterar sua estrutura de conexões para interpretá-lo.

O feito extraordinário do engenho humano coletivo criou o implante coclear e, ao mesmo tempo, escancarou as portas da neurociência para o surpreendente mundo da plasticidade cerebral.    

 

 

 

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O Direito de Morrer

 

Becky, minha adorável vira-lata, morreu ontem. Andrea, bem mais moderna que eu, dizia que ela era caramelo. Estava conosco há cerca de 17 anos. Quando chegou, trouxe vigor e alegria contagiantes. Escolheu nossa casa e tomou posse de nossos corações.

Nos últimos meses já estava bem frágil. Cega, devido a catarata, surda e com o faro menos apurado, devido ao natural envelhecimento.

Tinha uma paraparesia leve, devido a artrose, que não a impedia de descer e subir escadas para chegar a seus lugares preferidos na casa e no quintal.

O trio de cães lá de casa era composto de dois labradores, Bertrand e Hanna, capitaneados pela chefe da matilha, Becky.

Bertrand morreu precocemente, aos 5 anos, devido a uma insuficiência renal fulminante, pra lá de esquisita.

Hanna tinha dez anos quando foi diagnosticada com um sarcoma avançado, sem possibilidade terapêutica. Sua eutanásia foi há apenas um mês.

Foi de cortar o coração a cena que passamos a presenciar quando chegávamos em casa: Becky, sentada na cama de Hanna, uivava um pranto de tristeza e saudade. Colocávamos no colo, abraçávamos e ela se acalmava.

Nesse último mês Becky envelheceu anos. Houve dias em que pensamos que ela não acordaria de um sono profundo e prolongado. Mas ela simplesmente dava o ar da graça e movia livremente com suas mazelas senis. Era um recado para Andrea e eu: preparem-se, estou partindo.

E foi assim. Pena não estarmos junto dela no derradeiro momento.

Quando comentei sobre a terminalidade de Becky com o professor Hercules Pereira Neves, da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, ele me consolou dizendo que os cachorros vivem pouco porque já chegam no mundo preparados para amar. Nós precisamos de mais tempo para aprender.

Ele tem razão. O amor de Becky conosco era incondicional. E somos muito gratos a ela pelas lições de amor.

Externo nossa gratidão também pela lição que nos deu, ao nos preparar para sua morte. Limitada e frágil, nos últimos dias Becky já não demonstrava vigor nem alegria, suas principais características. Era o tempo de morrer.  Era o direito dela.

Becky nos deixa um pouco da paz que demonstrava em seu rosto, já inerte. Vive agora nos giros de nossas boas memórias. 

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Duas Inteligências, um só propósito.

 


 

A inteligência artificial (IA) foi o tema que abordei em minha mensagem de fim de ano no Instagram (@jairraso).

Há uma inquietude em relação ao assunto, principalmente quanto à possibilidade de que um dia a IA possa substituir o cérebro humano.

Na mensagem, ressalto que o propósito da IA não é o de substituir o cérebro, mas sim o de auxiliá-lo na árdua tarefa de compilar, armazenar e evocar informações. Nisso, indiscutivelmente, a IA é imbatível. Com esse auxílio valioso, nosso cérebro estaria   liberado para outras tarefas mais construtivas.

Encerro a otimista mensagem desejando que esse ano seja o ano em que as duas inteligências, a artificial e nossa natural inteligência sejam utilizadas para a construção de um mundo melhor, mais inteligente.

Mas temos que reconhecer os riscos do uso indevido da IA e a necessidade de regulamento do seu uso.

Em informe publicitário publicado na revista Piauí de janeiro, o Youtube e Google exaltam o potencial revolucionário da IA ao mesmo tempo em que lançam princípios que devem nortear seu uso, com ética e responsabilidade.

Dentre esses princípios destacam-se o compromisso da IA em ser socialmente benéfica e o de respeitar a privacidade das pessoas.

Como a IA trabalha dados, talvez o essencial seja mesmo o princípio de se evitar vieses, mantendo-se a transparência e o controle na compilação e divulgação de seus conteúdos.

Para além de informações verídicas e corretas, o grande desafio do uso da IA é o respeito pelo direito autoral.

Como ferramenta, não há dúvida que a IA será cada vez mais incorporada ao nosso dia a dia, influenciando nossas escolhas e tomadas de decisão.

Para que a liberdade da informação elaborada por IA seja preservada, precisamos estabelecer limites. Digo precisamos porque são nossas atitudes é que farão a diferença.

Bastam pequenos passos    para nos colocar no caminho correto: checar informações antes de repassá-las, confirmar fontes da informação, dar-lhes o devido crédito e não replicar mensagens de conteúdo preconceituoso de qualquer espécie.

Esse exercício simples de rigor intelectual é um pequeno exemplo da possível materialização virtuosa do trabalho das duas inteligências: a inteligência humana alinhada à IA servindo ao propósito da construção humana.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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A morte de Rita Lee

 



Uma vez me perguntaram se eu gostava de rock e eu, açodadamente disse que não. Afinal, prefiro clássica e MPB.
Mas a morte de Rita Lee me mostrou que minha resposta sempre foi  equivocada. Adoro rock, pois sou fã incondicional de Rita Lee.

Nunca havia feito a relação de que sendo fã da Rita Lee, eu gostava de rock. Melhor ainda, de rock bem brasileiro. 
Sempre gostei dela, não só pela irreverência e humor, mas sobretudo pelas músicas. 

Em sua música Saúde, composta com seu parceiro, Roberto de Carvalho ela diz que “enquanto estou viva e cheia de graça
Talvez ainda faça um monte de gente feliz”. Eu estou no meio desse monte de gente.

Ouvir Rita Lee, me deixa feliz.

Em meu livro, Saúde, Vida Longa e Morte Súbita, lançado em 2017,  presto uma singela homenagem a ela. Transcrevo:


Ritalina 

No início de minha carreira atendia crianças. Um dia estava atendendo um menino e, como acontece com quem atende menino, a gente acaba mesmo atendendo à mãe. Ela já chegou com o diagnóstico, o que é sempre terrível.

-Meu filho é hiperativo. Tem déficit de atenção.

O diabo do menino, melhor dizendo, o anjinho não parava quieto. Vai que a mãe está certa, pensei.

Pior ainda é que esta mãe chegou também já prescrevendo o tratamento:

-Acho que ele precisa de Ritalina.

Depois de muito examinar a criança e ouvir sobre suas travessuras, diagnostiquei que estávamos diante de um artista. E sugeri uma prescrição diferente.

-Ao invés de Ritalina, que tal Rita Lee?

Arte cura artista. Arte irreverente cura mais. Mas a irreverente prescrição não deve ter sido seguida. A mãe deve ter procurado outro médico que concordasse com seu diagnóstico.

 

 


 

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Inteligência Artificial versus Ignorância Genuína

 


 

A publicação de uma carta pela organização futureoflife.org   pedindo moratória para as pesquisas relacionadas à inteligência artificial (IA) joga por terra um dos mitos relacionados ao assunto: a de que seriam apenas os ignorantes e lunáticos preocupados com o futuro da humanidade com o avanço das aplicações da IA.

A carta é assinada por cientistas, filósofos e empresários, gente de peso como Sam Altman, criador do ChatGpt; Steve Wozniak; um dos fundadores da Apple; o historiador e escritor Yuval Noah Hariri, o cientista da computação da Universidade de Berkley, nos EUA, Yoshua Bengio e o CEO da Tesla e do Twitter, Elon Musk.

 

A preocupação central da organização é com a segurança da humanidade, pois no caminho inverso do desenvolvimento da IA estão os controles de seu uso com objetivos bélicos (drones carregados com mísseis com alvos precisos) e até mesmo o controle da divulgação de notícias falsas, incluindo o risco da propagação de conhecimento sem lastro científico e definição de autoria.

Há outros mitos que precisam ser combatidos. Muitos temem que robôs conscientes irão propagar o mal pelo mundo. Na verdade, IA tem mais a ver com a internet do que com Robôs e precisa estar alinhada com os objetivos de desenvolvimento da humanidade.

Talvez o mito maior seja que a IA venha a controlar dominar o homem, na falsa crença que as máquinas possam vir a ser mais inteligentes. Isso, sim, é um mito.

Parra além dos mitos e riscos, os benefícios da IA são inequívocos. Basta ver sua incipiente incorporação na saúde, tanto no refinamento e precisão de diagnósticos, como na pesquisa científica. Pode-se dizer que a IA irá revolucionar a maneira como praticamos a medicina hoje com benefício real para os pacientes.

Não creio que uma moratória tão curta como a proposta pelos signatários do manifesto seja eficaz para atingir os objetivos. A incorporação da IA pelo homem nem é mais questão de tempo. Ela já está aqui

Tao urgente quanto o rápido desenvolvimento da inteligência artificial é o combate à ignorância genuína dos homens.

 

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Pacto pela não violência

 


Pacto pela não violência

Em outubro de 2022 manifestei minha intenção de voto convocando a neurociência para justifica-la.

O cerne da minha escolha se devia ao fato de que o governo Jair Bolsonaro pregava e praticava constantemente a violência.

Na ocasião escrevi sobre a violência:  “Ela é fruto da agressividade que está presente em todos animais e é essencial para a sobrevivência. A natureza não descarta nada. Temos em nosso cérebro os mesmos mecanismos de agressividade de outros animais. No ser humano a agressividade é expressa por    violência, seja física, verbal ou mesmo a violência da indiferença, expressa pela falta de compaixão e empatia”.

Na evolução do nosso cérebro, áreas mais recentes, notadamente o córtex pré-frontal, vão progressivamente sobrepujando áreas mais antigas, num processo que nos permitiu criar a civilização. Essas mesmas áreas respondem pelo pensamento crítico e suas conexões criam circuitos que resultam em  comportamentos e atitudes essenciais para construir um espaço de convivência em harmonia com nossos pares. Essa evolução cerebral aponta o caminho da sobrevivência da humanidade: dominar a besta que existe dentro de cada um de nós.

Arrematei a crônica de outubro informando que votaria em candidatos que “prezam e lutam pela liberdade, tolerância, compaixão, respeito às instituições e, sobretudo, pela não violência”.

Os acontecimentos desse histórico 8 de janeiro confirmam que eu estava certo. Vestindo verde-amarelo e sob o pretexto de protestar contra os resultados das eleições, bolsonaristas radicais tentaram destruir os símbolos da democracia em Brasília. Não se trata de liberdade de expressão, mas de violência pura e simples.

A reação está em curso. Há em construção um pacto mundial pela democracia que foi visivelmente atacada. As nações civilizadas já aprenderam que a democracia é o melhor modelo de governo e a violência de ontem foi um inequívoca ataque a ela. O repúdio foi imediato.   

Proponho outro pacto, esse, no íntimo de cada cidadão: um pacto pela não violência. Temos evidências de sobra para apostar nessa escolha que, ao dominar o animal que nos habita, nos levará de volta aos trilhos da construção da humanidade.


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